43 anos do Levante do Ferro’s Bar: a origem do Dia do Orgulho Lésbico no Brasil

Em 19 de agosto de 1983, lésbicas feministas realizaram uma manifestação contra a censura no Ferro’s Bar, em São Paulo. O ato foi organizado pelo Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF), depois que os donos do estabelecimento proibiram a venda do boletim ChanacomChana e impediram a entrada de integrantes do grupo. O episódio, liderado por Rosely Roth, ficou conhecido como Levante do Ferro’s Bar e se tornou um dos marcos da história do movimento lésbico brasileiro.

Quarenta e três anos depois, a data é celebrada como o dia do orgulho lésbico no Brasil, ela retoma a memória de mulheres que se organizaram para garantir o direito de se informar, se reunir e falar sobre suas próprias vivências, em um período no qual essas histórias raramente encontravam espaço na imprensa ou na vida pública.

Rosely Roth no Ferro`s Bar, em São Paulo, em 19 de agosto de 1983
Rosely Roth no Ferro`s Bar, em São Paulo, em 19 de agosto de 1983

Um ponto de encontro para lésbicas

Nos anos 1980, o Ferro’s Bar era um importante ponto de encontro para lésbicas em São Paulo, o local inaugurado em 1961 na Rua Martinho Prado,, reunia conversas, amizades, mas também servia como espaço para debates e articulação política, em uma época marcada pela falta de visibilidade e pelo preconceito contra mulheres que se relacionavam com mulheres.

Era no Ferro’s que integrantes do GALF distribuíam o ChanacomChana, uma publicação voltada às vivências lésbicas. O boletim tratava de feminismo, relações entre mulheres, cultura, aborto, violência policial e assuntos que estavam longe dos jornais e da televisão. A circulação do ChanacomChana contribuia para que leitoras encontrassem informação e criassem uma rede de apoio.

A fundação do GALF

O GALF foi fundado oficialmente em 17 de outubro de 1981 por Míriam Martinho, Rosely Roth e colaboradoras. O grupo nasceu após a dissolução do Grupo Lésbico-Feminista (LF), coletivo que havia se originado dentro do SOMOS, um dos primeiros grupos do movimento homossexual brasileiro. A nova organização defendia um espaço próprio para discutir as demandas de lésbicas e fazer frente ao apagamento que também aparecia em grupos feministas e homossexuais mistos.

Além do ChanacomChana, o GALF organizava reuniões, ações culturais e debates, suas integrantes construíram uma rede de contato entre lésbicas de várias partes do país. Míriam Martinho e Rosely Roth se tornaram figuras centrais nessa trajetória, ao lado de outras mulheres, como Célia Miliauskas, Elisete Neres, Luiza Granado, Alice de Oliveira e Vanda Frias, que ajudaram a manter uma organização lésbica ativa durante boa parte da década de 1980.

A censura que levou ao levante

A tensão no Ferro’s Bar já vinha se acumulando havia algum tempo, mas teve um marco preciso: em 23 de julho de 1983, o dono do bar e funcionários expulsaram violentamente as militantes do GALF que tentavam vender o ChanacomChana no local e proibiram sua entrada. Embora o bar tivesse lésbicas entre suas principais frequentadoras, a proibição atingia uma publicação feita por essas mulheres e para essas mulheres, a resposta foi organizar uma manifestação em frente ao estabelecimento.

O dia do levante

No dia 19 de agosto de 1983, as integrantes do GALF retornaram ao Ferro’s com apoio de ativistas gays, feministas e de figuras políticas, entre elas a vereadora Irede Cardoso (PT) e o então deputado Eduardo Suplicy. Encabeçadas por Rosely Roth, que discursou em cima de cadeiras denunciando a violência contra lésbicas, as manifestantes forçaram a entrada no bar, denunciaram os abusos da administração e exigiram o direito de vender o boletim. O grupo conseguiu entrar no local e obteve do dono a promessa de que a distribuição não seria mais impedida.

A manifestação é considerada a primeira ação pública lésbica contra a discriminação no Brasil. Segundo registros do período, algumas publicações a chamaram de “Stonewall brasileiro”, em referência à revolta de Stonewall, em Nova York (1969). A comparação ajuda a destacar o alcance do levante, mas a história do Ferro’s Bar tem nomes, demandas e caminhos próprios.

O reconhecimento oficial da data

Em 2003, vinte anos após o protesto, iniciativas de ativistas lésbicas passaram a divulgar o 19 de agosto como Dia do Orgulho Lésbico no Brasil, a data também foi reconhecida oficialmente em São Paulo por meio de lei estadual aprovada pela Assembleia Legislativa em junho de 2008. Desde então, ela se tornou um momento para olhar para o passado e reconhecer a resistência que tornou outras formas de existência mais possíveis.

Obras

A memória do levante também chegou ao cinema com o curta-documentário Ferro’s Bar, realizado coletivamente pelo grupo Cine Sapatão e lançado em 2022/2023. A produção reúne relatos de frequentadoras e militantes para revisitar o episódio e sua importância para a formação do movimento lésbico brasileiro.

Ferro’s Bar

A partir das memórias de lésbicas que frequentavam o Ferro’s Bar, o curta revisita a vida no centro de São Paulo no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980, durante a ditadura militar, o filme acompanha o Levante do Ferro’s Bar, episódio central para a formação do movimento lésbico brasileiro, e propõe preservar simbolicamente a memória de um espaço que nunca foi reconhecido como lugar de memória, sem deixar de lado suas contradições

Ficha técnica
Brasil, 2022, 24 minutos
Direção de Aline A Assis, Fernanda Elias, Nayla Guerra e Rita Quadros

Disponível no streaming Filmicca

Na Noite Lésbica: O levante do Ferro’s Bar

No livro, a pesquisadora Julia Kumpera reconstrói a noite de 19 de agosto de 1983, quando um grupo de mulheres se reuniu em frente ao Ferro’s Bar, em São Paulo, a obra recupera o levante que marcou o Dia do Orgulho Lésbico e apresenta o bar como um importante ponto de encontro para lésbicas nas décadas de 1970 e 1980, atravessado por afeto, repressão, preconceito e organização política

Ao revisitar essa história, o livro também registra a luta de diferentes gerações de mulheres e a importância de ocupar a cidade,

Ficha técnica
Autora: Julia Kumpera
Editora: Grupo Autêntica
Coleção: Nossas Histórias

Disponível na Amazon


Quarenta e três anos depois, o Levante do Ferro’s Bar segue como lembrança de uma luta feita de encontros, informação e ação coletiva, celebrar o Dia do Orgulho Lésbico é reconhecer as mulheres que enfrentaram a censura, abriram espaço para suas próprias vozes e ajudaram a construir caminhos que continuam necessários hoje

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